Salve Santo Angenor de Oliveira, mais conhecido como São Cartola, acho que todo sambista devia começar suas preces invocando esse patrono dos bêbados e moribundos, dos descalços e descalçados, dos que sofrem por amor, dos que sofrem de solidão.
O poeta das noites boemias, com sua pouca escolaridade e seu coração pulsando sobre suas palavras, dizia e cantava para os que quisessem ouvir, que não tinha medo de mostrar que os homens também podem chorar.
Gente humilde, de um morro como qualquer outro, daquele que tem sua escola de samba como uma das maiores do Rio de Janeiro, a tão famosa Mangueira. A voz do povo na sua forma mais simples e completa, o samba, das mãos de um trovador que na sua vida apenas quis que ouvissem sua voz. Ao mestre Cartola, todos os meus sambas e poesias a ti, que na Lapa pude sentir, o quão vibrante batem suas colunas.
Como ja disse o saudoso Nelson Sargento: "Cartola foi um sonho que tivemos"
Sob os arcos da Lapa eu fiz esse poema
Protegido pelas curvas de sua construção senti vontade de escrever
A luz do Sol faz os loucos e moribundos rastejarem através das sombras
A energia cultural transita nesse ambiente e o sol faz esconder o perfume da madrugada
Meus olhos atentos não deixam escapar nenhum detalhe
Panfletos de shows passados, crianças desaparecidas, desaparecidos
Estar de frente ao Disco Voador, os bares, butequins e esquinas faz-me sentir um pouco parte de tudo.
Antigas construções corroídas pelo lixo ao lado do luxo
O luxo da sua história impregnado nas paredes de tijolo
Posso nunca mais estar aqui de novo, mas minhas mãos trazem um pouco do cal das paredes úmidas da Lapa.
Sentado em seus degraus vermelho mozaico carrego para mim as palavras aqui deixadas: Lapa, Bohemia, Malandragem, Saudade...
Por Fellipe Abdalla